Arquivos para categoria: Crônicas


O espaço é um lugar grande. Mais vasto que uma xícara de café comparada a um grão de açúcar, e tão preto quanto.

Houve boatos de pessoas muito bem intencionadas que tentaram medir o universo, contudo houve uma briga memorável sobre o sistema de medidas a ser utilizado: métrico ou inglês. Depois de séculos a escolha foi o sistema inglês, mesmo sendo terrivelmente sem lógica e difícil de entender.

Depois de anos esticando a imensa fita métrica descobriram algo, não existia fita métrica grande o suficiente para medir o universo. Logo os medidores chegaram a uma conclusão: o universo é grande, bem grande.

À distância para chegar de um lado do universo ao outro, pode ser comparada então, a mesma distância de um banheiro do outro lado de um campo de futebol, quando você acabou de descobrir que esta com diarreia. Longe, bem longe.

Alguns dizem que o universo é, pelo contrario, muito pequeno, e que ele funciona como um jogo de videogame: chegando ao final você sai de novo no começo e como é tudo igual, ninguém percebe a diferença.

fim

Autor: Emerson Silva

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11setembro

11 de setembro ensolarado. Um estranho caminhava pelo Aeroporto Internacional do Galeão no Rio de Janeiro. Mohamed exibia uma barba mal feita e rosto bronzeado, apenas com uma maleta de mão para pegar o próximo avião direto para Nova York. Entrou discreto pelo saguão, empurrado por milhares de pessoas que se espremiam ao som de um obsceno funk carioca.

Depois de passar mais de 1 hora na fila, Mohamed chegou a guichê, colocou a maleta de mão no chão ao lado das pernas.

-Que inferno isso aqui! Mal posso esperar pra ter minhas 100 virgens!

-Virgem? Por aqui? – Riu a moça que ouvia música alta no fone de ouvindo e lixava as unhas.

Mohamed entregou seus documentos.

-Senhor, temos um pequeno problema. Seu voo atrasou, terá que esperar 1 hora pra poder partir!

-Uma hora? Eu preciso partir agora! E que você seja apedrejada se eu não sair daqui!

-Mas senhor, o seu o avião atrasou. Ouvi dizer que encontraram um problema em uma das turbinas, parece que roubaram os fios de cobre de um dos motores.

-Roubaram os fios de cobre? Mas o que é isso? Como alguém rouba fios de cobre de um avião? Isso é um absurdo!

-Eu não sei senhor, só estou dizendo o que me passaram.

Mohamed se abaixou para pegar a maleta de mão, as pessoas atrás o espremiam, suadas carregando mais bagagem do que conseguiam e o funk continuava.

-Onde está minha mala!

-Senhor – apontou a moça para um menino que corria – acho que roubaram ela.

-Mas meu passaporte! Minha faca! Meus mapas da cidade de nova York! Volta aqui seu trombadinha!

-Sinto muito senhor, mas se quiser pode comprar um mapa em uma loja aqui do aeroporto mesmo.

-Ah, que ótima ideia, por Alá! Até que enfim. E quanto custa um mapa? – Perguntou esperançoso.

-Acho que uns 200 reais.

-200 reais em um mapa?

-Senhor eu tenho eu te pedir desculpas, mas aconteceu outro imprevisto. O seu voo não vai mais partir, parece que houve outro problema.

-Que problema agora?

-Um cantor de sertanejo universitário chegou ao aeroporto e as aeromoças saíram pra pedir um autografo. Olhando a fila daqui! – esticou o pescoço – acho que elas demoram algumas horas.

-Mas que droga é essa de sertanejo universitário? Um voo nunca sai no horário nesse país!

-Claro que sai senhor, quando não tem muito passageiro pra pegar o voo ele sempre sai.

-Qual é a lógica disso? No meu país costurariam sua boca por falar assim!

-O seu muçulmano não grita comigo em! Você não me conhece! Tem bastante quibe aqui pra comer. Em três horas eu prometo que o seu voo sai, enquanto isso pode ficar na sala de espera – ela apontou para algumas cadeiras, sem estofado e com a tinta descascando.

Mohamed se sentou, em meio a crianças chorando, pessoas se espremendo e o som de funk carioca ainda entrando pelos ouvidos. Se imaginou alto, voando, em direção a um prédio, a ideia parecia ainda melhor agora.

-Marmud! – disse ele ao celular – Operação cancelada! Vamos ter que esperar outra oportunidade!

O telefone estava mudo.

Droga de ligação! – Gritou ao ver que o sinal do celular havia caído.

fim

Autor: Emerson Silva

icebergUm barco se aproximava de uma gigantesca rocha de gelo, boiando sobre o mar pouco agitado, gelado. Conforme se aproximava a enorme pedra de gelo boiante, se arrumava, esfregava o corpo pra ficar mais transparente, arredondava as pontas pra parecer menos agressiva.

O repórter se equilibrou na ponta do barco com seu microfone, dando um pequeno espaço para o câmera assustado. Então começou a entrevista:

-Muito boa noite, este é mais um episódio de: Casos que não foram para os tribunais! Hoje vamos falar de um acidente que matou milhares de pessoas: o naufrágio do Titanic! Tiranizado por muitos hoje eu entrevisto o iceberg, que nunca pode contar sua versão dos fatos e foi visto como um vilão desde o dia em que o grandioso navio afundou. Em primeira mão pra você!

O repórter coçou a garganta, expirou fazendo sair vapor pelas narinas, então se preparou e começou:

-Senhor irceberg! Como vai?

-Eu vou bem e agradeço a oportunidade da entrevista.

-Pode nos contar o que realmente aconteceu naquela noite do naufrágio?

Meio sem jeito, envergonhado, coraria se tivesse cor, o iceberg começou a falar, gaguejando um pouco no começo.

-Foi um dia comum pra mim, eu estava tranquilo, como sempre, fazendo o que sempre faço, boiando com 90% do meu corpo submerso. A noite, como sempre, eu me preparava pra um cochilo, o mar estava calmo e não havia sinal de nada que pudesse estragar minha noite. Até que aquela geringonça desgovernada, sem rumo veio em minha direção.

-E o que o senhor fez? – Perguntou o repórter.

-O que eu fiz? Eu sou um iceberg, eu não fiz nada! Fiquei no meu lugar, até que aquela coisa gigante de metal batesse em mim, me fez um estrago e tanto, demorei um tempão pra congelar de novo.

-Depois de todos estes anos, qual a sua maior frustração?

-Minha maior frustração? É saber que ficam colocando a culpa em mim. “Ah se não fosse o maldito iceberg!” “Aquele iceberg desgraçado, tinha que afundar o pobre Titanic!” Quer saber? Aquela coisona de metal é que teve a culpa toda! Ele veio correndo que nem maluco, apitando, me acordou no meio da noite! Depois bate em mim e me machuca, aí fazem filmes pra ele, dizem que ele era um grandioso navio nobre. Nobre onde? Ta mais pra um bêbado desgovernado! Aí o iceberg leva a culpa e fazem filmes sobre o Titanic.

-Mas isso logo vai acabar não é senhor iceberg? – Perguntou o repórter.

-Claro que vai! Nesta semana eu lanço minha biografia “A culpa não foi minha!”, e no ano que vem estréia um filme em 3D sobre a minha história, e de como um casal apaixonado teve que se separar quando um maldito navio desgovernado se jogou em um pobre iceberg. Espero todos vocês na sala de cinema. – Deu uma piscadela para a câmera.

-Muito obrigado senhor iceberg! Agradeço a sua entrevista.

O repórter entrou em foco.

-E essa foi mais uma emocionante história dos “Casos que não foram para os tribunais!” te aguardo semana que vem com uma entrevista exclusiva com, Harry e Larry, os aviões gêmeos que foram jogados nas torres gêmeas! Eles juram não ter culpa de nada! Um abraço e até a próxima!

fim

Autor: Emerson Silva

enfim livre

Eu vivia em um aquário, nadando para os lados daquele cubo de vidro transparente. Os idiotas do lado de fora, inocentes, achavam que eu estava iludido achando que morava dentro de um grande oceano de água salgada. Eu conseguia perceber as pedrinhas que sequer existiam no mar, aquelas algas de plástico com cheiro estranho, os peixes esquisitos que jamais viveriam próximos a mim, e principalmente: eu via a televisão do outro lado da sala passando aquele monte de filmes ruins, este era o maior indicio de que alguma coisa estava errada.

Eu sou dourado, o único do aquário, os azuis, burros como nenhum outro tipo de peixe, se achavam no mar. Nadavam bem rápido até baterem do outro lado do vidro, e ficavam loucos correndo quando alguma criança batia na parede transparente que bloqueava a gente e segurava a água.

Às vezes eles ficavam todos parados, esperando a ração cair pela parte de cima, com as bocas abertas feito um bando de malucos. Noutras eles só nadavam uns contra os outros, se debatendo no meio da água que borbulhava com a bombinha do lado de cima. Eu tentei escapar algumas vezes, mas do lado de fora é seco, você nem faz idéia do quanto é difícil respirar. Por sorte fui tirado daquele tanque um dia, e hoje vivo feliz no mar.

O mar é justamente o que eu sempre imaginei. Tem água limpa, salgada e com pedras e algas de verdade. Tem peixes parecidos comigo, tem ondas espumantes na parte de cima, e não tem muitas crianças por aqui. O vidro é bem mais longe do que em um aquário, não existem TVs com filmes, mas sim uma bela paisagem que fica colada contra o vidro do lado de fora. O mar é ótimo, o único problema é que tem uma placa escrita bem na nossa frente: peixe dourado, mas é bem melhor aqui do que dentro do aquário, pois aqui estamos enfim, livres.

fim

Autor: Emerson Silva

carro

Meu pai era mecânico de carros. Sempre me levava pra oficina quando podia. Às vezes eu ficava lá, sentado no canto, olhando ele remexer nos fios, desparafusar algumas peças, desmontar e montar um carro inteiro pra fazer funcionar. Às vezes ele me chamava pra ajudar e eu ficava lá com a cabeça dentro do capô, vendo o emaranhado de fios, segurando uma lanterna pra iluminar o motor.

Meu pai dizia que as pessoas são muito parecidas com os carros, eu demorei anos pra entender isso, achei que era uma brincadeira, mas com o passar do tempo descobri que era muitas vezes verdade.

Como os carros as pessoas quando são novas atraem todo o tipo de atenção, todo mundo gosta. Não novas só quando nascem, mas novas quando chegam em nossas vidas, nesse momento elas são tudo o que queremos.

Como os carros elas precisam de combustível, algo que de a elas um motivo pra seguir em frente, pra continuar rodando a estrada. Pessoas também têm espelhos e adoram olhar pra trás e muitas vezes se esquecem do vidro que mostra o caminho todo que tem pela frente. Às vezes elas perdem a direção, aceleram demais e não aproveitam a paisagem ou andam devagar e chegam atrasadas.

Como os carros, com o passar dos anos, elas se desgastam e às vezes quebram e não conseguem mais andar. Meu pai descobriu que elas não se arrumavam sozinhas e que era quase sempre preciso um mecânico pra juntar alguns fios e por as coisas de volta no lugar. Em algumas ocasiões, infelizmente, não era possível concertar.

Como os carros às vezes elas são trocadas, são deixadas por falhar, por terem alguns arranhões, amassados ou um pneu furado. Então estas pessoas são trocadas, por carros mais novos, mais potentes, melhores ou não.

Meu pai nunca soube lidar bem com pessoas, apesar de ser um ótimo mecânico de carros.

fim

Autor: Emerson Silva

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