11setembro

11 de setembro ensolarado. Um estranho caminhava pelo Aeroporto Internacional do Galeão no Rio de Janeiro. Mohamed exibia uma barba mal feita e rosto bronzeado, apenas com uma maleta de mão para pegar o próximo avião direto para Nova York. Entrou discreto pelo saguão, empurrado por milhares de pessoas que se espremiam ao som de um obsceno funk carioca.

Depois de passar mais de 1 hora na fila, Mohamed chegou a guichê, colocou a maleta de mão no chão ao lado das pernas.

-Que inferno isso aqui! Mal posso esperar pra ter minhas 100 virgens!

-Virgem? Por aqui? – Riu a moça que ouvia música alta no fone de ouvindo e lixava as unhas.

Mohamed entregou seus documentos.

-Senhor, temos um pequeno problema. Seu voo atrasou, terá que esperar 1 hora pra poder partir!

-Uma hora? Eu preciso partir agora! E que você seja apedrejada se eu não sair daqui!

-Mas senhor, o seu o avião atrasou. Ouvi dizer que encontraram um problema em uma das turbinas, parece que roubaram os fios de cobre de um dos motores.

-Roubaram os fios de cobre? Mas o que é isso? Como alguém rouba fios de cobre de um avião? Isso é um absurdo!

-Eu não sei senhor, só estou dizendo o que me passaram.

Mohamed se abaixou para pegar a maleta de mão, as pessoas atrás o espremiam, suadas carregando mais bagagem do que conseguiam e o funk continuava.

-Onde está minha mala!

-Senhor – apontou a moça para um menino que corria – acho que roubaram ela.

-Mas meu passaporte! Minha faca! Meus mapas da cidade de nova York! Volta aqui seu trombadinha!

-Sinto muito senhor, mas se quiser pode comprar um mapa em uma loja aqui do aeroporto mesmo.

-Ah, que ótima ideia, por Alá! Até que enfim. E quanto custa um mapa? – Perguntou esperançoso.

-Acho que uns 200 reais.

-200 reais em um mapa?

-Senhor eu tenho eu te pedir desculpas, mas aconteceu outro imprevisto. O seu voo não vai mais partir, parece que houve outro problema.

-Que problema agora?

-Um cantor de sertanejo universitário chegou ao aeroporto e as aeromoças saíram pra pedir um autografo. Olhando a fila daqui! – esticou o pescoço – acho que elas demoram algumas horas.

-Mas que droga é essa de sertanejo universitário? Um voo nunca sai no horário nesse país!

-Claro que sai senhor, quando não tem muito passageiro pra pegar o voo ele sempre sai.

-Qual é a lógica disso? No meu país costurariam sua boca por falar assim!

-O seu muçulmano não grita comigo em! Você não me conhece! Tem bastante quibe aqui pra comer. Em três horas eu prometo que o seu voo sai, enquanto isso pode ficar na sala de espera – ela apontou para algumas cadeiras, sem estofado e com a tinta descascando.

Mohamed se sentou, em meio a crianças chorando, pessoas se espremendo e o som de funk carioca ainda entrando pelos ouvidos. Se imaginou alto, voando, em direção a um prédio, a ideia parecia ainda melhor agora.

-Marmud! – disse ele ao celular – Operação cancelada! Vamos ter que esperar outra oportunidade!

O telefone estava mudo.

Droga de ligação! – Gritou ao ver que o sinal do celular havia caído.

fim

Autor: Emerson Silva